Em março de 2026, o Banco do Brasil e a Visa fizeram a primeira transação de comércio agêntico do país: o agente de IA procurou o produto, escolheu o vendedor e fechou o pagamento, dentro de parâmetros que o consumidor tinha definido antes, segundo a Istoé Dinheiro. Foi um piloto controlado, mas ele muda a pergunta que as fintechs precisam responder. Os pagamentos agênticos no Pix e nos cartões já têm trilho técnico. O que ainda não tem resposta clara é quem responde quando o agente paga errado.
O trilho já existe: Pix, Open Finance e cartão tokenizado
Há dois caminhos em teste no Brasil. No primeiro, as bandeiras cuidam da autenticação e da tokenização do cartão. Cerca de dez dias depois do anúncio da Visa, a Mastercard rodou pagamentos por agentes com cartões do Itaú Unibanco e do Santander, e a Elo informou que, por ora, a conclusão da compra ainda exige autorização do usuário (ambos segundo a Istoé Dinheiro). Em abril, a Visa também lançou o programa Visa Agentic Ready, com Banco do Brasil, Bradesco, Dock, Santander e XP na primeira fase, conforme a Finsiders Brasil.
O segundo caminho passa pelo Pix. A Iniciador afirma ter lançado, em junho, a primeira solução de pagamentos agênticos baseada em Pix, em que o consentimento do Open Finance é dado uma vez e vale por um período determinado, o que dispensa senha e OTP a cada ação, segundo a Vanquish. A alegação de pioneirismo é da própria empresa. A Iniciador também lançou um servidor MCP para que modelos como ChatGPT, Claude e Gemini iniciem pagamentos Pix via Open Finance, de acordo com a Finsiders.
O relatório do BTG Pactual, citado pelo Money Report, resume a vantagem brasileira: o Open Finance entrega acesso padronizado e consentido a dados, e o Pix oferece a camada de execução, disponível 24 horas por dia.
O gargalo é mandato, não API
Elcio Calefi, diretor de Tecnologia e Experiência da Associação Open Finance Brasil, foi direto em artigo na Finsiders Brasil: o MCP é um mecanismo de conexão. Ele não representa o consentimento do cliente, não prova até onde vai a autoridade delegada e não define quem responde se o agente executar uma operação inadequada. Para ele, conectar uma API financeira a um modelo de linguagem não é, por si só, uma arquitetura segura de agentic finance.
Na prática, isso desmonta o atalho mais comum de implementação, o agente que usa as credenciais do cliente como se fosse o cliente. Calefi alerta que esse modelo de impersonação elimina a capacidade de saber quem realmente realizou a ação. Numa disputa ou numa investigação de fraude, o log mostra o cliente, e não o agente.
A proposta dele é manter três identidades separadas:
- Principal: o cliente ou a empresa que delega a tarefa.
- Agente: o software que executa dentro de um mandato.
- Operador: quem opera o agente e responde por ele.
Como peças técnicas, ele cita o OAuth Token Exchange, com a claim act para registrar que alguém age em nome de outro, e as Rich Authorization Requests (RAR), que permitem descrever o que foi autorizado com mais precisão do que um escopo genérico. O mesmo artigo registra que a OpenID Foundation reconhece que os padrões atuais atendem casos simples, mas têm dificuldade com autonomia maior, subagentes, várias organizações e operações assíncronas.
Perguntas em aberto que as fintechs vão ter de fechar
A lista de pendências no texto de Calefi é um bom roteiro de produto: quem opera e responde pelo agente, qual é o objetivo autorizado, quando exigir nova aprovação humana, como revogar um mandato e como tratar fraude, erro, disputa e responsabilidade. O BTG chega a um ponto parecido e coloca confiança, identidade e autorização como os principais obstáculos à adoção em escala, segundo o Money Report. A saída de curto prazo que o banco descreve é a “autonomia supervisionada”: agentes com limites explícitos e confirmação ou biometria nas transações de maior risco.
A demanda não é o problema. Uma pesquisa da Visa, citada pela Iniciador e reproduzida pela Finsiders, indica que 76% dos brasileiros dizem pretender usar IA para comprar. É intenção declarada, não uso medido, e a própria cobertura mostra que o consumidor ainda quer confirmar a compra. Por isso, a confiança vai depender mais de controles visíveis do que de autonomia.
O que dá para implementar já
Com base no que os especialistas citados apontam, uma fintech que pretende expor APIs a agentes pode começar por cinco controles:
- identidade verificável do agente, separada da identidade do cliente;
- mandatos com objetivo, valor máximo e validade, e não apenas um escopo amplo de acesso;
- registro verificável de cada autorização e de cada ação executada;
- limites de gasto definidos pelo usuário ou pela empresa;
- regra clara de quando a transação sobe para confirmação humana e caminho simples para revogar o mandato.
Nenhuma das fontes que consultei trata de um normativo específico do Banco Central para pagamentos iniciados por agentes, e a própria matéria da Finsiders sobre o tema não responde quem arca com o prejuízo quando a transação dá errado. Até isso ser definido, o contrato, os termos de uso e o desenho do mandato é que vão dizer quem responde.
Conclusão
O Pix e o Open Finance resolveram o difícil trecho técnico de mover dinheiro com segurança. O trecho que falta é jurídico e de arquitetura: provar quem autorizou o quê. Quem desenhar o mandato do agente com cuidado agora vai poder escalar quando o consumidor estiver pronto. Se a sua fintech está avaliando como expor pagamentos a agentes de IA, fale com o time da Luby e vamos desenhar essa arquitetura juntos.

