O Open Finance pode gerar R$ 42 bilhões em novas receitas para o setor financeiro brasileiro até 2026, segundo estudo da PwC/Strategy&. O número não é hype de consultoria — é uma projeção construída sobre categorias de crédito específicas e sobre o efeito cascata de reduzir a inadimplência. A pergunta que interessa para quem toca uma fintech não é se o bolo existe. É quanto dele vai parar fora dos bancos incumbentes — e os dados mais recentes do Banco Central mostram que, por enquanto, é pouco.
De onde vêm os R$ 42 bilhões
O estudo da PwC divide a projeção em R$ 28 bilhões de pessoa física e R$ 14 bilhões de pessoa jurídica. Dentro do bloco PF, o crédito puxa a conta: crédito pessoal sem garantia (R$ 6,8 bi), consignado (R$ 6,7 bi) e imobiliário (R$ 4 bi) somam R$ 17,5 bilhões. Há também um efeito indireto relevante: cada 1 ponto percentual de redução na inadimplência pode representar até R$ 56 bilhões em economia para as instituições financeiras, considerando o saldo total de crédito do país. Ou seja, parte do valor do Open Finance não vem de vender mais — vem de decidir melhor quem recebe crédito, usando dados compartilhados para reduzir risco.
Fintechs ainda capturam só 17% do crédito via Open Finance
Segundo dados do Banco Central, apresentados no evento Fintouch 2025, o ecossistema já soma mais de 800 instituições participantes, 111 milhões de consentimentos ativos e cerca de 70 milhões de contas conectadas. Do total de R$ 31 bilhões em crédito já originado via dados compartilhados, apenas R$ 5,4 bilhões — 17% — vieram de fintechs. O resto ficou com os bancos incumbentes.
Isso não é um sinal de fracasso das fintechs — é o mapa do que ainda está livre. As fintechs de crédito já concederam R$ 21,1 bilhões em empréstimos em 2023, um salto de 52% sobre o ano anterior, e o Open Finance já é a prioridade de investimento de 38% dessas empresas, segundo pesquisa da ABCD com a PwC. Duas frentes concretas ampliam essa janela em 2026: a API de portabilidade de crédito do Open Finance, com rollout completo previsto para fevereiro, e o mercado de embedded finance, que já movimenta cerca de R$ 23 bilhões por ano no Brasil.
O gargalo real não é dado — é velocidade de integração
O estudo FinFacts 2026, conduzido por Google Cloud e R/GA e citado pelo Let’s Money, encontrou um dado desconfortável para os bancos: nenhuma das 20 instituições financeiras avaliadas ofereceu um produto ou benefício ao cliente imediatamente após o consentimento de dados em 2026 — uma regressão em relação a 2025, quando pelo menos 4 instituições conseguiam fazer isso. O gargalo apontado não é falta de dados disponíveis; é a lentidão de integração com sistemas legados de decisão de crédito.
Para uma fintech, essa lentidão dos incumbentes é ao mesmo tempo risco e oportunidade. Risco porque, se a fintech também travar na ativação dos dados que já tem acesso, perde a corrida por receita para quem for mais rápido. Oportunidade porque agilidade tecnológica — indexar, decidir e ofertar em cima de dado compartilhado logo após o consentimento — vira, na prática, o principal diferencial competitivo frente a bancos que ainda carregam arquitetura legada.
O que muda com as novas regras de BaaS
O Banco Central está regulamentando novas regras de Banking-as-a-Service com vigência até o fim de 2026, exigindo governança mais robusta, controles de cibersegurança e responsabilidades mais claras entre parceiros. Isso eleva a barreira de entrada e deve pressionar um movimento de consolidação entre fintechs menos preparadas para operar sob esse padrão mais rígido. Para quem já leva compliance a sério, é uma barreira a favor — reduz a concorrência de operações mais frágeis justamente na hora em que o mercado de crédito via Open Finance começa a se abrir de verdade.
- Priorizar velocidade de ativação: decidir e ofertar logo após o consentimento do cliente, onde 20 dos maiores bancos do país ainda falham.
- Acompanhar de perto a API de portabilidade de crédito (rollout completo em fevereiro de 2026) como porta de entrada para clientes de bancos incumbentes.
- Investir em governança e cibersegurança agora, antes da vigência plena das novas regras de BaaS no fim de 2026.
Conclusão
Os R$ 42 bilhões não vão se dividir automaticamente por tamanho de instituição. Eles vão para quem conseguir transformar dado compartilhado em oferta em tempo real — e, por enquanto, esse não é o forte dos bancos incumbentes. Para fintechs dispostas a investir em integração rápida e governança sólida, a corrida por receita do Open Finance ainda está bem aberta.

