A jornada otimizada do Open Finance entrou em vigor em 22 de junho de 2026, e o nome engana: ela não funde consentimento de dados e pagamento num ato só. O que o Banco Central liberou, segundo o InfoMoney, é a possibilidade de o cliente compartilhar saldo e limite no mesmo fluxo em que vincula a conta ao Pix por aproximação ou autoriza movimentações automáticas. Para quem constrói produto de pagamento em fintech, a diferença entre esses dois entendimentos define o escopo do backlog.
O que a jornada otimizada realmente muda
Antes, mostrar saldo ao usuário na hora de pagar exigia um consentimento de compartilhamento de dados e, depois, outro para vincular a conta de pagamento. Cada etapa tinha seu redirecionamento e sua autenticação. A regra nova junta os dois em uma única autorização, como descreve o MundoCoop, e vale para dois cenários: vínculo de conta a uma instituição iniciadora em carteira digital e transferências inteligentes entre contas do mesmo cliente.
O motivo é prático. O BC aponta que saldo insuficiente é um dos principais motivos de falha em pagamentos via Open Finance. Se o app consegue exibir saldo e limite antes da confirmação, o pagamento que ia falhar vira uma escolha de outra forma de pagar.
Regras de consentimento que viram requisito de produto
Algumas restrições do regulador afetam diretamente a interface e o backend de quem recebe o consentimento:
- A opção de compartilhar saldo e limite precisa ser selecionada ativamente pelo cliente e não pode vir pré-preenchida. Nas palavras de Matheus Rauber, do BC, “o cliente precisa ativamente selecionar a opção”.
- O compartilhamento é opcional: a vinculação da conta ou a autorização de movimentação automática deve seguir normalmente se o cliente não marcar a opção.
- O cliente pode cancelar o compartilhamento de saldo e manter a conta vinculada, e pode revogar o consentimento a qualquer momento.
- A finalidade de uso dessas informações precisa estar clara para o cliente, qualquer que seja a solução oferecida, conforme o BC, em matéria do Lets Money.
Na prática, isso exige tratar saldo e limite como escopos separados dentro do mesmo consentimento, com estado próprio no seu consent manager. Um único booleano de “consentimento ativo” não basta.
Onde isso se encaixa no Open Finance 7.0
A jornada otimizada nasceu dentro da versão 7.0 do manual do Open Finance, publicada em 22 de abril de 2026, junto com as Instruções Normativas BCB 724 e 725, de 16 de abril. Segundo o Lets Money, a v7.0 é um refinamento de um serviço específico, a integração entre pagamento e dados, ao contrário da v6.0, que ampliou o escopo para portabilidade de salário, câmbio e novos campos de cartão.
Os números dão o tamanho do canal: mais de 154 milhões de consentimentos ativos e R$ 15,3 bilhões em iniciações de pagamento registradas em 2025, de acordo com a mesma fonte. A mesma matéria não identificou prazo regulatório publicado para a adoção da v7.0, então o ritmo depende de cada instituição.
Durante o piloto, a funcionalidade ficou restrita a dois serviços, limite e saldo disponível. Elcio Calefi, do Open Finance Brasil, disse ao Mobile Time que a jornada otimizada é a primeira a usar dois produtos numa única ação. É um sinal de que a lista deve crescer.
Impacto para fintechs: integração, limites e prazos
Há dois prazos e uma base instalada para observar. O primeiro é 1º de outubro de 2026, data em que as instituições precisam ajustar seus sistemas à retirada do teto fixo de R$ 500 do Pix por aproximação, com limites ajustáveis pelo cliente, segundo o Money Times. A mudança também alcança transações do Open Finance iniciadas sem redirecionamento e pagamentos em carteiras digitais.
A base é a Jornada Sem Redirecionamento (JSR). Desde 14 de novembro de 2024, 13 conglomerados, entre eles Itaú, Bradesco, Nubank, Inter e Mercado Pago, são obrigados a ofertá-la, e respondem por 99% dos pagamentos concluídos com sucesso, conforme o Finsiders Brasil. Quem integra como iniciador de pagamento já conversa com a maior parte do volume pelo fluxo sem redirecionamento, e a jornada otimizada se apoia nele.
Um checklist técnico para o time de produto:
- Mapear quais instituições detentoras de conta já expõem a jornada otimizada, lembrando que a oferta do serviço é opcional para elas.
- Separar escopos de saldo e limite no modelo de consentimento e tratar revogação parcial.
- Desenhar a tela de consentimento sem opção pré-marcada e com a finalidade de uso explícita.
- Implementar fallback quando o saldo for insuficiente: sugerir outro meio de pagamento em vez de falhar.
- Revisar limites por transação e diários na experiência de pagamento antes de 1º de outubro.
Conclusão
A jornada otimizada é um passo pequeno na norma e grande na conversão: tirar do caminho um consentimento a mais reduz abandono, mas só entrega valor se a interface respeitar as regras de opção ativa e revogação. Se a sua fintech já inicia pagamentos via Open Finance, qual parte do fluxo hoje perde mais usuários, o redirecionamento ou o saldo insuficiente? Vale medir antes de priorizar.

