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    Insight17 de set. de 2026

    Insurtechs Miram os 70% de Brasileiros Sem Seguro: Como Pier, Justos e Thinkseg Reinventam o Mercado com IA

    Pessoa segurando smartphone com painel de dados e gráficos em tempo real na tela

    Mais de 70% dos brasileiros não têm nenhum tipo de seguro, segundo a Allianz Seguros. O recorte por categoria é ainda mais duro: 71% da frota nacional de veículos roda sem cobertura, e 82% dos adultos seguem sem seguro de vida. É nesse vazio que um grupo de insurtechs decidiu apostar, trocando processos manuais e formulários intermináveis por inteligência artificial. Pier, Justos e Thinkseg são três exemplos de como essa aposta está tomando forma — cada uma com um caminho próprio para o mesmo problema.

    Um mercado pequeno para um país grande

    O setor de seguros representa hoje cerca de 6% do PIB brasileiro, bem atrás da média de países desenvolvidos. A meta do Plano de Desenvolvimento do Mercado de Seguros da CNseg é chegar a 10% até 2030, com o setor projetando arrecadação de R$ 808 bilhões só em 2026.

    Esse hiato entre tamanho de PIB e penetração de seguros é exatamente o espaço em que insurtechs enxergam oportunidade. Segundo a Exame, o Brasil já soma 129 insurtechs ativas. Ainda assim, apenas cerca de 20% da população tem algum tipo de cobertura.

    Pier: sinistro resolvido em 1 segundo

    A Pier foi a primeira insurtech autorizada a operar no Sandbox Regulatório da Susep, e usa isso como vitrine para o que a IA pode fazer na hora mais crítica da relação entre segurado e seguradora: o sinistro. Segundo a co-CEO Camila Kataguiri, a empresa já processa cerca de 30% dos sinistros abertos com análise automática de documentação, efetuando reembolsos em aproximadamente 1 segundo.

    Com seguros de celular e automóvel, a Pier já superou R$ 130 milhões em prêmios. Resolver rápido o momento de dor do cliente, nesse caso, funciona como estratégia de crescimento, não apenas como ganho de eficiência operacional.

    Justos: visão computacional e preço justo

    A Justos foi fundada por Dhaval Chadha, Jorge Soto Moreno e Antonio Molins, que se conheceram no Vale do Silício em passagens por ClassPass, Netflix e Airbnb. A empresa usa inteligência artificial e visão computacional para analisar e processar sinistros de forma mais rápida, o que reduz o tempo de resolução de incidentes, e automatiza o suporte técnico em tempo real.

    A empresa também está desenvolvendo IA voltada especificamente para corretores, tentando resolver outro gargalo do setor: a distribuição. A tese, sustentada por uma rodada de R$ 92 milhões liderada pela Ribbit Capital, com Kaszek, Endeavor Catalyst e Scale-Up Ventures, é simples: dados melhores geram preços mais justos e clientes mais fiéis.

    Thinkseg: quem dirige menos, paga menos

    Considerada a primeira insurtech totalmente digital do Brasil, a Thinkseg aposta em telemetria para cobrar o segurado pelo que ele realmente usa. Levantamento da FintechLab mostrou que motoristas que usam menos o carro chegaram a pagar até 40% menos no seguro por assinatura da empresa, que recebeu aporte de R$ 50 milhões para desenvolver o modelo.

    É um modelo que só faz sentido com dado comportamental em tempo real. Seguradoras tradicionais, presas a tabelas atuariais estáticas, têm dificuldade de processar esse tipo de informação na mesma velocidade.

    IA virou piso, não diferencial, e isso muda o jogo

    O detalhe que muda a leitura desse movimento: IA não é mais exclusividade de insurtech. 80% das seguradoras brasileiras já usam inteligência artificial em algum processo, segundo pesquisa citada pela InfoMoney. A tecnologia deixou de ser vantagem competitiva isolada para virar requisito mínimo de operação.

    A própria CNseg pondera que modernização tecnológica sozinha não resolve o problema da baixa penetração de seguros no Brasil. É preciso também inovar em produto, distribuição e regulação, e alcançar consumidores fora da base tradicional de média e alta renda.

    Isso ajuda a explicar por que Pier, Justos e Thinkseg não competem exatamente entre si:

    • Pier aposta em velocidade e experiência no momento do sinistro;
    • Justos aposta em precificação justa e suporte a corretores via IA;
    • Thinkseg aposta em preço proporcional ao uso real do bem segurado.

    O que isso significa para quem acompanha o mercado

    Os 70% de brasileiros sem seguro não são, na minha leitura, um problema de produto ruim. São, em boa parte, um problema de distribuição cara e preços que não conversam com a realidade de quem paga. IA ajuda nessas duas frentes, mas o crescimento projetado de 5,7% a 8% para o setor em 2026 só vira inclusão de fato se vier acompanhado de produtos pensados para quem hoje está fora do sistema, como motoboys, informais e famílias de baixa renda.

    Vale acompanhar de perto: a próxima onda de insurtechs brasileiras provavelmente não vai se diferenciar por ter IA, isso já é padrão. Vai se diferenciar por quem conseguir transformar esses 70% em clientes pagantes antes da concorrência.