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    Insight8 de set. de 2026

    Consignado CLT: Fintechs Ainda Perdem para os Bancos Nesse Mercado

    Notas de dinheiro e calculadora sobre uma mesa, remetendo a cálculo de crédito e parcelas

    A imprensa vem tratando o consignado CLT como uma guerra aberta entre fintechs e bancões. Os números contam outra história. O “Crédito do Trabalhador” já movimentou R$ 11 bilhões desde o lançamento, mas o Nubank — apontado como o principal desafiante do setor — responde por apenas 0,4% das originações, bem abaixo dos cerca de 5% que a fintech tem no crédito ao consumidor em geral, segundo levantamento do Money Times. Para quem constrói produtos de crédito digital, o dado que importa não é quem fala mais alto sobre o consignado CLT — é quem realmente está ganhando mercado, e por quê.

    Um mercado bilionário, dominado pelos bancos tradicionais

    Segundo reportagem da Finsiders Brasil, o setor de consignado privado já soma R$ 117 bilhões em operações desde o lançamento do produto, com fintechs como Nubank, PicPay, Inter, QI Tech, Mercado Pago, PagBank, Agibank e Celcoin disputando espaço com Itaú, Bradesco, Banco do Brasil, Santander, Caixa, Banco Pan e C6. Mas volume não é o mesmo que domínio: bancos tradicionais ainda concentram a maior fatia das originações, e a fintech mais citada nas manchetes é, na prática, uma das menos presentes no produto.

    A exceção é o PicPay. A fintech já origina cerca de R$ 600 milhões por mês em consignado privado — perto de 4% de participação em novas concessões — e o produto já responde por cerca de 20% da carteira de crédito da empresa, segundo dados também do Money Times. A carteira setorial total saltou de R$ 40 bilhões para mais de R$ 100 bilhões em pouco mais de um ano, e a Fitch estima potencial de R$ 200 a 400 bilhões — um mercado grande o suficiente para recompensar quem entrar com estratégia clara, e punir quem entrar só para aparecer no noticiário.

    O risco que ninguém quer repetir: o padrão do consignado do INSS

    O consignado CLT chega com uma vantagem de garantia real: o FGTS pode ser usado para cobrir o crédito, com até 10% do saldo disponível para quem aderiu ao saque-rescisão, até 35% das verbas rescisórias e até 100% da multa rescisória, segundo a CNN Brasil. As taxas variam de 1,63% a 6,87% ao mês entre instituições, e uma nova regra do Ministério do Trabalho e Emprego passou a limitar o Custo Efetivo Total a no máximo 1 ponto percentual acima da taxa contratada, para conter tarifas abusivas — conforme reportagem da Agência Brasil.

    O alerta está nos números que cercam essas garantias. Já são 74% dos tomadores com dois ou mais contratos de consignado ativos simultaneamente, e o comprometimento de renda das famílias brasileiras com dívidas chegou a 49,7% em abril de 2026, próximo do recorde histórico, com mais de 80% das famílias endividadas, de acordo com dados do Banco Central citados pela mesma reportagem da Agência Brasil. É exatamente o padrão que historicamente empurrou o consignado do INSS para ciclos de reendividamento — múltiplos contratos simultâneos, garantias cada vez maiores liberadas, e famílias já no limite da renda comprometida.

    O que as fintechs de crédito digital já sabem fazer melhor

    Existe um contra-argumento de peso para quem teme que o consignado CLT vire mais um capítulo de superendividamento: as fintechs de crédito digital já têm um histórico mensurável de gestão de risco superior à média do mercado. Em 2025, elas concederam R$ 53,8 bilhões em crédito — alta de 51% sobre os R$ 35,5 bilhões de 2024, sexto ano seguido de crescimento — somando quase 95 milhões de clientes, sendo 86,1 milhões só no Brasil, segundo a 6ª Pesquisa Fintechs de Crédito Digital, da ABCD em parceria com a PwC, divulgada pela Finsiders Brasil.

    O dado que mais importa está na qualidade dessa carteira: a inadimplência de crédito pessoal entre as fintechs de crédito digital ficou em 10,1% em 2025, muito abaixo dos 36,3% do crédito livre em geral no país. E 82% do crescimento do setor veio da expansão de carteiras já existentes, não do lançamento de produtos novos e agressivos — sinal de um modelo em maturação, não em expansão descontrolada.

    Como competir no consignado CLT sem repetir o erro do passado

    Juntando os dois lados dos números, a vantagem competitiva real das fintechs de crédito digital não deveria estar em conceder mais crédito mais rápido — deveria estar em usar dado e tecnologia para replicar, no consignado CLT, a mesma disciplina de risco que já produz inadimplência de 10,1% em outros produtos. Com o novo teto regulatório de CET reduzindo a margem para competir só na base do preço agressivo, a diferenciação por eficiência e gestão de risco passa a valer mais do que taxa baixa isolada. Antes de correr atrás de volume no consignado CLT, vale a pena responder a três perguntas:

    • O modelo de crédito consegue identificar, entre os 74% de tomadores com múltiplos contratos ativos, quem está perto do limite de comprometimento de renda antes de liberar mais uma linha?
    • A estratégia de entrada segue o modelo PicPay — foco e integração profunda com a carteira de crédito existente — ou tenta competir só por marketing, como parece ter sido o caso do Nubank até aqui?
    • A operação está pronta para o novo teto de CET, competindo por eficiência operacional em vez de margem apertada via tarifa?

    Conclusão

    O consignado CLT não é a corrida acirrada entre fintechs e bancos que a cobertura de imprensa sugere — é um mercado onde alguns poucos players com estratégia clara (PicPay, os grandes bancos) capturam volume real, enquanto outros nomes conhecidos ficam de fora apesar do barulho. Para fintechs de crédito digital que já sabem administrar risco melhor que a média do mercado, o consignado CLT é uma oportunidade genuína — desde que a régua de disciplina de crédito que já funciona em outros produtos não seja abandonada só para ganhar participação de mercado rápido. Sua fintech está entrando nesse mercado com uma estratégia de risco, ou só perseguindo o próximo anúncio de imprensa?