Pular para o conteúdo principal
    Insights1 de set. de 2026

    Banco Central Projeta Convergência entre Pix, Drex, Open Finance e Tokenização de Ativos (RWA) até 2029: o Que Fintechs Devem Preparar Agora

    Cliente realizando pagamento por aproximação com o celular em terminal point-of-sale, ilustrando a infraestrutura de pagamentos digitais que o Banco Central planeja convergir com Drex, Open Finance e tokenização de ativos.

    O Banco Central deu um nome ao que vem depois do Pix e do Open Finance: convergência. No planejamento estratégico para o ciclo 2026-2029, apresentado no evento LiveBC, a autoridade monetária sinalizou que Pix, Open Finance, Drex e tokenização de ativos reais (RWA) deixarão de ser projetos paralelos para formar uma única infraestrutura financeira programável. Rogério Lucca, Secretário-Executivo do Banco Central, chamou a combinação Drex + RWA de “terceira grande infraestrutura pública digital” do país, ao lado do Pix e do Open Finance. Para fintechs, isso não é retórica de evento: é um cronograma regulatório que já começou a rodar em 2026, com prazos concretos para quem lida com ativos virtuais.

    O plano 2026-2029: Drex e RWA como a “terceira infraestrutura pública digital”

    Segundo reportagem baseada na apresentação de Rogério Lucca, a tokenização de ativos reais e a reestruturação do Drex vão convergir com Pix e Open Finance até 2029, criando um ecossistema financeiro mais programável e, segundo o próprio Lucca, “mais eficientes e mais seguros, baseados em tokens”, conforme declarou também em entrevista destacada pela Exame. O plano estratégico, batizado de “Compromisso com a Estabilidade”, mantém os quatro pilares de inovação do BC ativos simultaneamente, mas, segundo análise publicada na Gazeta do Povo, sob um padrão de governança mais rígido do que na fase anterior, marcando a transição de “abertura irrestrita” para “inovação condicionada à responsabilidade institucional”. Na prática, o BC está dizendo que a fase de experimentação livre acabou.

    Por que o Drex abandonou o blockchain — e o que isso ensina sobre arquitetura

    Vale entender o que motivou essa guinada. Na Febraban Tech 2025, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, admitiu que a rede distribuída usada nos testes do Drex (Hyperledger Besu) “não se mostrou viável” para os objetivos do projeto: funcionou do ponto de vista de negócio, mas não deu conforto quanto à adequação a sigilo bancário e proteção de dados, segundo relato da Exame. A cobertura da ConvergenciaDigital detalha que, dos 13 modelos de negócio testados na fase 2 do piloto, 5 envolviam uso de ativos como garantia em operações de crédito, e foi justamente esse recorte que sobreviveu à reformulação. O recado para quem constrói produto é direto: o Banco Central não está comprado com blockchain como tecnologia-fim; está comprado com o caso de uso. Arquitetura acoplada a uma DLT específica, torcendo por compatibilidade nativa com o Drex, é aposta de alto risco.

    A nova fase é sobre crédito, não sobre “moeda digital”

    Com a saída do blockchain, a fase 3 do Drex concentra esforço em mecanismos de garantia de crédito: usar ativos tokenizados (incluindo, potencialmente, criptoativos como bitcoin e stablecoins) como colateral em empréstimos, conforme apontou Lucca em entrevista citada pela Exame. O relatório de avaliação da fase 2 foi concluído no fim de julho de 2025, e uma versão simplificada dessa nova arquitetura é esperada ainda para 2026, embora nenhuma fonte oficial tenha cravado uma data exata de lançamento. Para fintechs de crédito, isso muda a pergunta estratégica: não é mais “quando o Drex vai virar moeda digital de uso geral”, e sim “como meu motor de crédito vai reconhecer e liquidar garantias tokenizadas quando essa camada estiver disponível”. Quem já trabalha com originação de crédito garantido por recebíveis, duplicatas ou outros ativos tem o caso de uso mais próximo dessa nova fase, e o maior incentivo para acompanhar de perto.

    PSAVs: o relógio regulatório que já está correndo em 2026

    Enquanto o Drex se reorganiza, o Banco Central já apertou a regulação de quem opera com ativos virtuais hoje. As Resoluções BCB nº 519, 520 e 521 colocaram em vigor, desde 2 de fevereiro de 2026, a exigência de autorização do BC para Provedores de Serviços de Ativos Virtuais (PSAVs), conforme detalhado pela Merc Group. PSAVs que já operavam antes dessa data têm prazo improrrogável de 270 dias, até 30 de outubro de 2026, para protocolar o pedido de autorização; a partir dessa segunda data, instituições autorizadas ficam proibidas de intermediar operações com contrapartes não autorizadas. As exigências incluem capital mínimo (a partir de dezenas de milhões de reais, variando por atividade), segregação patrimonial e controles de prevenção à lavagem de dinheiro e financiamento do terrorismo, equiparando, na prática, PSAVs a instituições financeiras tradicionais para fins de supervisão. Fintechs que tratam esse assunto como “problema de corretora de cripto” e não como parte da própria estratégia de tokenização correm o risco de descobrir tarde demais que o prazo já está contando.

    O que preparar agora: checklist para fintechs

    O mercado já está reagindo. O volume de tokenização de ativos reais no Brasil somou R$ 2,9 bilhões em emissões até janeiro de 2026, com estimativas de mercado apontando para até R$ 7 trilhões em crédito potencialmente destravado a partir da maturação desse mercado, segundo apuração da Finsiders Brasil. A mesma fonte destaca que o próprio Banco Central reconhece uma lacuna regulatória para a tokenização de instrumentos como CDBs, CCBs e duplicatas — normas que devem amadurecer ao longo de 2026. Diante disso, quatro frentes merecem atenção imediata:

    • Compliance de PSAV desde já: mapear se qualquer produto da fintech se enquadra como serviço de ativo virtual e iniciar o processo de autorização antes de 30 de outubro de 2026.
    • Arquitetura desacoplada de DLT proprietária: evitar dependência de uma blockchain específica para integração futura com o Drex — o próprio BC abandonou essa premissa.
    • Modelagem de garantias tokenizáveis: para fintechs de crédito, desenhar contratos e motores de decisão capazes de reconhecer ativos tokenizados como colateral.
    • Monitoramento regulatório contínuo: acompanhar a regulamentação pendente de CDBs, CCBs e duplicatas tokenizados, que deve avançar em 2026 e afetar diretamente instrumentos de captação e crédito.

    Conclusão: convergência é estratégia, não apenas tecnologia

    A mensagem do Banco Central para 2026-2029 não é sobre qual tecnologia vencerá, e sim sobre qual infraestrutura vai sustentar o sistema financeiro brasileiro daqui a três anos — e essa infraestrutura já está sendo desenhada com prazos, resoluções e pilotos concretos, não apenas discursos. Fintechs que tratarem a convergência entre Pix, Open Finance, Drex e tokenização de RWA como um problema de compliance para “resolver depois” vão competir em desvantagem com quem já está adequando arquitetura e governança agora. O momento de mapear exposição a PSAV, revisar dependência tecnológica e desenhar produtos de crédito compatíveis com garantias tokenizadas é este trimestre — não 2029.