Por cinco anos, o Open Finance brasileiro construiu a infraestrutura. Em 2 de fevereiro de 2026, essa infraestrutura mudou de endereço: saiu dos dashboards de gestão bancária e chegou diretamente na tela do celular do tomador de crédito. A portabilidade digital de crédito — regulamentada pela Resolução Conjunta nº 15/2025 — transformou em produto real aquilo que durante décadas foi apenas um direito no papel.
O problema que a portabilidade antiga nunca resolveu
A portabilidade de crédito existia no Brasil desde 2006. Na prática, funcionava assim: o consumidor ligava para o novo banco, reunia documentos, esperava. O banco originador tinha até 5 dias úteis para processar — e tinha todo o incentivo para dificultar. O resultado? Um prazo real de 20 a 25 dias, visitas a agências e informação assimétrica que favorecia sistematicamente quem já tinha o contrato. O próprio Banco Central descreveu o mecanismo como burocrático e pouco eficaz. Era inércia institucionalizada: o tomador de crédito ficava preso não por falta de opção, mas por custo de saída elevado demais para compensar.
O Open Finance atacou esse problema pela raiz. Com o compartilhamento de dados padronizado, o banco receptor já tem as informações necessárias para fazer uma proposta competitiva. O que faltava era o canal digital para executar a portabilidade de ponta a ponta — e foi exatamente isso que a nova regulamentação criou.
O que mudou em fevereiro de 2026
O novo fluxo é radicalmente diferente. Pelo aplicativo do banco de destino, o cliente autoriza o acesso aos dados da operação atual — taxa, saldo devedor, parcelas restantes. O banco receptor analisa e faz uma proposta. O banco originador tem até 3 dias úteis para apresentar uma contraproposta ou aceitar a saída. Se não houver resposta, a portabilidade segue. Todo o processo acontece digitalmente, sem filas, sem agências, sem burocracia.
O portfólio elegível para essa primeira fase — crédito pessoal sem garantia e sem consignação — era de R$ 385,4 bilhões em dezembro de 2025. Vinte e sete instituições, entre bancos, fintechs e cooperativas, participaram do piloto e já estão habilitadas a operar o novo canal.
Os números que mostram que a competição já começou antes do lançamento
O Banco do Brasil não esperou o canal digital estar disponível para o público. Usando os dados de Open Finance já compartilhados pelos clientes, o BB atingiu R$ 2 bilhões em contratos portados até julho de 2025 — com 57.000 clientes que migraram seus financiamentos. No mesmo período, 2,1 milhões de correntistas tiveram seus limites de crédito ampliados com base nos dados do Open Finance, representando R$ 10 bilhões em capacidade adicional de crédito.
No ecossistema como um todo, o BCB contabilizou R$ 31 bilhões em operações de crédito originadas com dados do Open Finance desde o início do programa — dos quais R$ 5,4 bilhões (17,4%) foram originados por fintechs. São R$ 5,4 bilhões que, antes do Open Finance, quase certamente teriam ficado nos grandes bancos.
A infraestrutura que sustenta tudo isso
O Open Finance brasileiro completou cinco anos em fevereiro de 2026 com mais de 100 milhões de clientes e contas conectadas, 154 milhões de consentimentos ativos e mais de 900 instituições participantes. O sistema processa 4 bilhões de chamadas de API por semana e movimenta R$ 1,2 bilhão em pagamentos mensais. O Brasil lidera o ranking global de open finance entre 78 países com regulação vigente. Os pagamentos via Open Finance cresceram de R$ 3,2 bilhões em 2024 para R$ 15,3 bilhões em 2025 — uma expansão de quase cinco vezes em um único ano.
A barreira que ainda não foi removida: o RCO
A portabilidade digital não chegou sem atritos. O principal ponto de tensão é o Ressarcimento de Custo de Originação (RCO) — uma taxa paga pelo banco receptor ao banco originador quando um cliente porta seu crédito. A Zetta, associação que representa Nubank, Inter e outras fintechs, aponta que o RCO pode alcançar 15% do valor da operação, o que reduz significativamente o incentivo competitivo para o banco receptor. A Febraban defende a cobrança como mecanismo de ressarcimento legítimo. O BCB está revisando as regras do RCO em 2026 — e a decisão deve definir o quanto a portabilidade digital vai de fato democratizar o crédito ou apenas modernizar sua burocracia.
O próximo passo: consignado, imóveis e empresas
A fase atual cobre apenas crédito pessoal sem garantia. O roadmap do BCB prevê testes com crédito consignado do setor público federal em agosto de 2026, com lançamento público em novembro. Após isso: crédito consignado privado, crédito consignado de servidores estaduais e municipais e, eventualmente, crédito imobiliário. A PwC Brasil estima que o Open Finance pode gerar R$ 42 bilhões em novas receitas para o setor financeiro até 2026 — sendo crédito pessoal sem garantia (R$ 6,8 bi), consignado (R$ 6,7 bi) e imobiliário (R$ 4 bi) as maiores oportunidades.
Conclusão
A inércia bancária no crédito brasileiro não era um problema de falta de regulação — era um problema de custo de execução. A portabilidade existia; o que não existia era um canal que tornasse esse direito exercível sem fricção. O Open Finance resolveu o problema de dados. A Resolução Conjunta 15/2025 resolveu o problema do canal. O que restou — e que o BCB ainda precisa equacionar — é o RCO: a última peça estrutural que vai determinar se a competição no crédito pessoal será plena ou apenas parcialmente digital. Para o tomador de crédito brasileiro, o custo de trocar de banco nunca foi tão baixo. O setor que se adaptar mais rápido a esse novo equilíbrio vai capturar R$ 385 bilhões em portfólio que, pela primeira vez, está de fato em jogo.

