Enquanto o discurso sobre IA no setor financeiro ainda gira em torno de produtividade genérica, um dado recente deveria estar no topo da agenda de qualquer banco, fintech ou seguradora brasileira: os registros de indícios de fraude financeira cresceram 10,26% no primeiro semestre de 2026 frente ao segundo semestre de 2025, somando mais de 9 milhões de registros e 3,1 milhões de vítimas — quase 800 mil delas atingidas duas ou mais vezes. É nesse contexto que a chegada ao Brasil de uma fintech de decisão de risco baseada em IA ganha um peso que vai muito além do valor da rodada.
Uma rodada grande, com foco explícito no Brasil
A Taktile, fintech alemã fundada em Berlim em 2020, captou uma rodada Series C de US$ 110 milhões, liderada pela Growth Equity do Goldman Sachs Alternatives, com participação de Balderton Capital, Index Ventures, Tiger Global, Y Combinator e Dig Ventures — elevando o total captado pela empresa a US$ 184 milhões. Do valor da rodada, US$ 20 milhões vão diretamente para a expansão na América Latina, com foco inicial em Brasil e México. A empresa já abriu escritório em São Paulo e monta uma equipe local de cerca de 20 profissionais, liderada por Gabriel Purkyt (ex-BCG) e Carolina Fraidemberge (ex-FICO, B3, Equifax).
A plataforma da empresa, chamada “Agentic Decision Platform”, combina agentes de IA, regras de negócio e supervisão humana para automatizar decisões de alto risco. Segundo dados divulgados pela própria Taktile e reportados pela PYMNTS, a plataforma já entrega até 95% de automação no tempo de decisão em underwriting B2B, redução de 75% em falsos positivos de AML (prevenção à lavagem de dinheiro) e queda de 40% em casos fraudulentos em sinistros de seguros.
Por que o argumento de fraude pesa mais que o de produtividade
O Banco Central ampliou recentemente o compartilhamento de informações entre instituições financeiras via o registro unificado de fraudes (Rufra), criado pela Resolução 501 — e mesmo com mais dados circulando entre instituições, o volume de fraude continua subindo. Isso muda a natureza da conversa sobre IA no setor financeiro: não se trata mais de “fazer mais com menos gente”, mas de decidir corretamente e rápido o suficiente para acompanhar um adversário que também está automatizando seus próprios ataques.
Bancos brasileiros já vêm investindo pesado nessa direção: uma pesquisa Febraban/Deloitte encontrou que 82% dos bancos já incorporaram IA generativa, com ganho médio de produtividade de 11,4% nas tarefas que adotaram a tecnologia, dentro de um orçamento setorial de tecnologia de R$ 47,8 bilhões em 2025 — com previsão de crescimento de 65% em investimentos de Open Finance e 61% em IA/Analytics/Big Data, segundo a InfoMoney.
O mercado que ninguém está atacando de frente: os 45 milhões subatendidos
A estratégia de entrada da Taktile no Brasil se apoia em três pilares: time local com conhecimento de produtos como Pix e crédito consignado, integração de dados com players nacionais — Serasa, Boa Vista e Banco Central — e parcerias com fintechs e consultorias locais. O foco declarado não é o cliente já bancarizado, mas os cerca de 45 milhões de brasileiros ainda subatendidos em acesso ao crédito, dos 212 milhões de habitantes do país.
Fintechs brasileiras já mostram tração nessa mesma direção: a Cora, referência local em conta PJ, encerrou 2025 com volume transacionado de R$ 190 bilhões e crescimento de receita acima de 60%, apoiada em inteligência de dados para crédito. A empresa já opera um “Agente de Cobranças” com IA que recupera mais de 20% dos valores em atraso via WhatsApp sem aprovação humana, segundo a Exame, e projeta saltar o volume de crédito de R$ 200 milhões para R$ 600 milhões.
O que isso sinaliza para 2026
Três movimentos convergem ao mesmo tempo: fraude em alta, orçamento de tecnologia crescendo em Open Finance e IA, e um mercado de crédito subatendido do tamanho da população da Argentina. A entrada de players internacionais como a Taktile validam essa oportunidade — mas a estratégia declarada de orquestrar dados com os bureaus existentes, em vez de competir com eles, sugere que o valor real está na camada de decisão sobre a infraestrutura já disponível, não em reinventar os dados do zero.
- Quem trata IA de decisão de risco como projeto de produtividade genérica está mirando o problema errado — o crescimento de fraude é o motor mais urgente.
- O público subatendido em crédito é maior do que o público já bancarizado disputado por players tradicionais.
- Integração com bureaus existentes (Serasa, Boa Vista, Banco Central) tende a valer mais do que tentativas de substituí-los.
Sua instituição já está tratando decisão de risco com IA como resposta a fraude e inclusão de crédito — ou ainda está discutindo produtividade genérica enquanto o resto do mercado se move?

