Quando o Itaú Unibanco fechou, em 2023, uma joint venture de mais de R$ 1 bilhão com a Totvs para criar a Techfin, a aposta parecia simples: levar crédito para dentro do ERP. Três anos depois, o que se desenha é bem maior: um modelo de “ERP banking” em que o próprio sistema de gestão empresarial vira ponto de entrada para conta digital, meios de pagamento e crédito. Para o mercado de fintechs, o case Totvs-Itaú é o sintoma mais visível de uma mudança estrutural que combina Open Finance, uma nova regulação de Banking as a Service (BaaS) e a ambição de transformar qualquer software corporativo em distribuidor financeiro.
ERP banking: da tese à execução dentro do Protheus
A Totvs Techfin encerrou 2025 com carteira líquida de crédito de R$ 2,49 bilhões e originação total de R$ 13,2 bilhões no ano. A receita somou R$ 350,2 milhões, alta de 13,9% ante 2024, segundo levantamento da Finsiders Brasil. O resultado já torna a Techfin a terceira maior unidade de negócios da Totvs, superando divisões de software mais antigas.
O roadmap para 2026 prevê o lançamento de conta digital embarcada no ERP ainda no primeiro semestre, seguido de rendimento automático de saldo até dezembro e uma linha de “hot money” para cobrir necessidades imediatas de caixa, de acordo com reportagem do Startse. Produtos como o “Bolepix” (fusão de boleto com Pix para cobrança B2B) e capital de giro sem garantia já operam integrados ao Protheus.
“Toda transação financeira de uma empresa ou começa ou termina no ERP”, diz Eduardo Neubern, CEO da Totvs Techfin, ao explicar por que a gestão financeira das PMEs deixou de caber em três telas separadas: sistema de ERP, internet banking e planilha.
O mercado endereçável é robusto: empresas com faturamento anual entre R$ 30 milhões e R$ 300 milhões representam um potencial de R$ 107,2 bilhões. Nesse universo, a Totvs (com mais de 70 mil clientes em 40 países) ainda detinha apenas 0,4% de participação em serviços financeiros em 2022. É esse espaço em branco que a Techfin tenta ocupar.
Open Finance: a infraestrutura que tornou o ERP banking possível
Nenhum modelo de ERP banking funciona sem dados. E o Brasil construiu, em cinco anos, o maior ecossistema de Open Finance do mundo: mais de 100 milhões de contas conectadas e 154 milhões de consentimentos ativos, com crescimento de 143% em consentimentos únicos só entre 2024 e 2025, segundo a Finsiders Brasil. O país lidera um ranking de 78 nações com regulação de open finance, à frente do Reino Unido, pioneiro do modelo.
O salto mais expressivo está na iniciação de pagamentos: R$ 15,3 bilhões movimentados em 2025, contra R$ 3,2 bilhões em 2024, em 64,5 milhões de transações (ante 7,4 milhões um ano antes). É esse fluxo de dados e pagamentos que permite a um ERP como o Protheus oferecer crédito e conta digital com risco calculado, sem depender de agências físicas ou histórico bancário tradicional.
BaaS regulamentado: o que muda com a Resolução Conjunta BCB nº 16
Em 28 de novembro de 2025, o Banco Central e o CMN publicaram a Resolução Conjunta nº 16, que disciplina formalmente o modelo de Banking as a Service no país, segundo análise da Demarest Advogados. A norma define BaaS como o contrato entre uma instituição provedora (sempre autorizada pelo BCB) e uma tomadora, como a Totvs, que passa a oferecer aos clientes finais três frentes de serviço:
- Abertura e manutenção de contas de depósito ou de pagamento
- Serviços de adquirência
- Operações de crédito (oferta, contratação, administração e cobrança)
A instituição provedora (no caso da Techfin, o Itaú) segue integral e diretamente responsável pela execução dos serviços, prevenção a fraude, PLD/FT e proteção do cliente final. Instituições com contratos vigentes têm até 31 de dezembro de 2026 para se adequar às novas regras, o que deve provocar uma “seleção natural” entre provedores de BaaS, elevando a barreira de entrada e puxando consolidações no setor. Doug Storf, da Swap, resume em reportagem da Finsiders Brasil: “a barra subiu”.
Totvs não está sozinha, e o mercado deve crescer
Transformar ERPs em bancos não é exclusividade da dupla Totvs-Itaú. O Itaú já opera com a Omie desde 2021 na solução “Itaú Meu Negócio Gestão by Omie”; o Bradesco fechou parceria com a SAP; a Stone seguiu caminho parecido após a fusão com a Linx; e a Senior Sistemas formou joint venture com o BTG Pactual, segundo mapeamento da Exame.
O apetite por embedded finance é compatível com o tamanho da oportunidade: a modalidade deve movimentar R$ 24 bilhões em receitas adicionais só em 2026 no Brasil, com o mercado total projetado para superar US$ 18 bilhões até 2030, segundo a Fincatch. Só no crédito embarcado, o potencial de oferta pode ultrapassar R$ 83 bilhões, concentrado em PMEs e no público de classe C.
Conclusão
O que a parceria Totvs-Itaú deixa claro é que o banco do futuro talvez não seja um aplicativo. Pode ser a tela do ERP que a empresa já usa todos os dias. Com Open Finance maduro, BaaS regulamentado e um mercado de embedded finance em expansão de dois dígitos, 2026 tende a ser o ano em que o “ERP banking” deixa de ser conceito de nicho para virar linha de produto padrão entre softwares de gestão no Brasil. Para fintechs e techs financeiras, a pergunta não é mais se vão embarcar serviços financeiros. É com que velocidade.

