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    Insight9 de jun. de 2026

    Tokenização de Ativos Reais (RWA) no Brasil em 2026: R$ 410 milhões em 90 dias, DREX sem blockchain e a corrida institucional

    Financial instruments and currencies on a desk — representing the growing market for real-world asset tokenization and digital finance in Brazil

    O mercado brasileiro de tokenização de ativos reais (RWA) atingiu R$ 1,3 bilhão em ofertas totais em 2024. Em janeiro de 2026 — apenas um mês — os RWAs brasileiros já superaram R$ 1,5 bilhão em emissões, segundo o RWA Monitor. No primeiro trimestre de 2026, mais de R$ 410 milhões foram movimentados em estruturas RWA ativas, com retorno médio de 18% ao ano e taxa de captação superior a 95%. Esses números não vêm de experimentos cripto — vêm de crédito privado estruturado, CRAs agrícolas e recebíveis de PMEs. Ao mesmo tempo, o DREX — a CBDC do Banco Central — abandonou a blockchain permissionada e assumiu nova arquitetura. Não foi uma derrota. Foi o que liberou o mercado privado para acelerar.

    O que está movendo os R$ 410 milhões: crédito, não especulação

    A narrativa errada sobre tokenização de ativos reais associa o mercado a criptomoedas voláteis e investidores de risco. Os dados de 2026 contam uma história diferente: a tokenização funciona melhor onde há fricção real no crédito. A Vert Capital tokenizou R$ 130 milhões em CRAs (Certificados de Recebíveis do Agronegócio), com meta de R$ 500 milhões. O Banco BV lançou seu primeiro TIDC (Token de Investimento em Direito Creditório) em parceria com a Liqi, em abril de 2025. O Bradesco realizou a primeira tokenização de CCB (Cédula de Crédito Bancário) no valor de R$ 10 milhões dentro do sandbox regulatório do Banco Central.

    Com retorno médio de 18% ao ano — competitivo frente à Selic — e taxa de captação acima de 95%, esses produtos demonstram que a tokenização de renda fixa privada encontrou seu caso de uso principal no Brasil: democratizar acesso ao crédito estruturado para investidores que antes precisavam de valores mínimos de R$ 1 milhão para acessar CRAs e debêntures de alta qualidade.

    O DREX abandonou a blockchain — e o mercado privado acelerou

    Em 2025, o Banco Central encerrou o piloto do DREX na blockchain permissionada (Hyperledger Besu). A decisão chocou parte do mercado, mas seguiu um padrão global: o Project Hamilton (Fed/MIT), o e-CNY (China) e o Sand Dollar (Bahamas) chegaram à mesma conclusão por razões práticas — conciliar a transparência inerente à DLT com o sigilo bancário e proteção de dados exigidos por lei é um problema sem solução elegante em blockchain pública ou permissionada.

    O DREX passará a operar com arquitetura centralizada integrada ao Pix, com capacidade de mais de 100 mil transações por segundo, com lançamento previsto para o 2º semestre de 2026. De acordo com Rogério Lucca, secretário-executivo do Banco Central, tokenização e DREX são prioridades da agenda estratégica do BC para 2026-2029, com objetivos explícitos: ampliar acesso ao crédito, criar novos arranjos financeiros baseados em tokens RWA e permitir uso de ativos reais (imóveis, criptoativos, propriedades) como colateral para empréstimos. A “derrota” da blockchain no DREX foi, paradoxalmente, o sinal que o setor privado esperava para acelerar sem aguardar a infraestrutura estatal.

    A corrida institucional: BTG, B3, Bradesco e os novos players

    Em menos de 24 meses, BTG Pactual, B3, Banco BV e Bradesco passaram de observadores a operadores ativos de estruturas RWA. Essa transição do mercado de “projeto de startup” para “infraestrutura de banco” é o dado que muda o cálculo estratégico para qualquer fintech que ainda trata tokenização como ponto do futuro.

    • BTG Pactual: mantém o ReitBZ (antigo Reitz), o primeiro token no mundo a distribuir dividendos imobiliários via blockchain (Tezos)
    • B3: lançou plataforma white-label de tokenização RWA para crowdfunding, autorizada pela CVM em abril de 2024, com parceiros como Kria e EqSeed. Para o 2º semestre de 2026, a B3 prevê o lançamento de tokenização de ações. O mercado de crowdfunding digital movimentou R$ 3,3 bilhões em 614 ofertas em 2025, com taxa de sucesso de 99,7%.
    • Vórtx QR Tokenizadora: maior tokenizadora regulada do Brasil, autorizada pela CVM a emitir tokens de CRI, CRA, debêntures e cotas de fundos fechados
    • Banco BV + Liqi: primeiro TIDC de banco tradicional, sinalizando que o produto tem viabilidade operacional para scale

    No plano global, a escala é ainda mais impressionante: o mercado global de RWA cresceu 260% em 2025, atingindo US$ 23 bilhões (relatório Binance). A Securitize gerencia US$ 2,8 bilhões em títulos tokenizados do Tesouro americano para a BlackRock. O Brasil, com sua infraestrutura Pix como camada de liquidação e regulação CVM progressista, está entre os mercados de execução mais avançados do mundo em renda fixa tokenizada.

    A regulação que viabiliza: CVM Resolução 88, sandbox e a “135 light”

    O avanço institucional seria impossível sem a construção regulatória que aconteceu nos últimos dois anos. A CVM está reformando a Resolução 88 (crowdfunding), propondo elevar o teto de captação de R$ 15 milhões para R$ 25 milhões e eliminar o requisito de receita anual de R$ 40 milhões. A Resolução 135 (sandbox regulatório) terá versão simplificada — a “135 light” — para empresas que emitem tokens RWA mas não se enquadram nos critérios do sandbox completo. Essas mudanças não são sinalização política — são pré-condição operacional para que fintechs de tokenização atinjam escala sem risco regulatório.

    Conclusão

    Os R$ 410 milhões do primeiro trimestre de 2026 não são um número de nicho — são a prova de que a tokenização de ativos reais encontrou produto-mercado no Brasil. A combinação de taxa Selic que torna o retorno de 18% ao ano competitivo, infraestrutura Pix como camada de liquidação, regulação CVM progressista e presença de grandes bancos (BTG, BV, Bradesco, B3) eliminou as principais barreiras de adoção institucional. Para fintechs que operam em crédito, fundos ou investimentos, a pergunta não é mais “se” a tokenização vai virar infraestrutura — é “quando você vai estar posicionado para operar nessa camada”. O DREX centralizado chega no 2º semestre de 2026. A corrida para ser a camada acima dele já começou.