Em janeiro de 2026, o mercado brasileiro de ativos reais tokenizados (RWA — Real World Assets) atingiu R$ 1,5 bilhão — um crescimento de mais de 1.000% em doze meses. No mesmo período, o Banco Central publicou as Resoluções BCB nº 520 e 521, que entraram em vigor em 2 de fevereiro de 2026 e estabeleceram o marco regulatório definitivo para o setor. Para fintechs que ainda estavam aguardando o sinal verde regulatório para tokenizar ativos, esse sinal chegou.
O que mudou com as Resoluções BCB 520 e 521
As duas resoluções publicadas pelo Banco Central estabelecem os requisitos para a constituição e funcionamento das PSAVs (Prestadoras de Serviços de Ativos Virtuais) e para a prestação de serviços de ativos virtuais por instituições já autorizadas pelo BCB, conforme análise do Mattos Filho. Na prática, isso significa que instituições financeiras tradicionais — bancos, cooperativas de crédito, distribuidoras — podem agora operar com ativos tokenizados dentro do perímetro regulatório do BC, sem a necessidade de criar uma entidade separada.
Para fintechs, o impacto é duplo: o ambiente regulatório agora favorece a tokenização como produto financeiro legítimo, e a concorrência com players tradicionais se torna mais intensa. Quem chegar primeiro com produtos bem estruturados de tokenização de recebíveis e imóveis terá vantagem de posicionamento.
Quais ativos são elegíveis — e qual o potencial
A tokenização no Brasil não se limita a imóveis ou criptomoedas. De acordo com a análise de tendências para 2026, os ativos com maior tração incluem:
- Recebíveis — duplicatas, CCBs, CRIs e CRAs tokenizados. Segmento que deve dobrar em 2026, chegando a mais de R$ 40 bilhões em emissões tokenizadas, segundo a projeção da Livecoins.
- Imóveis — o Brasil já estruturou R$ 20 bilhões em Valor Geral de Vendas em operações de tokenização imobiliária e lidera a inovação regulatória global nesse setor, de acordo com a Fincatch.
- Fundos, energia renovável e infraestrutura — segmentos intensivos em capital onde a tokenização reduz barreiras de entrada para investidores menores e aumenta a liquidez de ativos historicamente ilíquidos.
O potencial total é expressivo: segundo projeções do mercado, a tokenização pode destravar até R$ 7 trilhões em crédito no Brasil a partir de 2026 — impulsionada pela modernização regulatória e pela infraestrutura do Drex.
O caso de negócio: 38% de redução nos custos operacionais
O argumento mais concreto para fintechs é o de eficiência. A tokenização de recebíveis pode reduzir até 38% os custos operacionais dessa modalidade de crédito no Brasil, ao automatizar fluxos financeiros via smart contracts, consolidar registros em blockchain e eliminar intermediários desnecessários — conforme reportado pela Exame.
Na prática, processos que antes dependiam de múltiplos agentes — cartórios, custodiantes, câmaras de compensação — passam a ocorrer de forma coordenada em redes blockchain autorizadas. Smart contracts automatizam distribuições, cessões e liquidações. O resultado é menor custo de crédito para o tomador final e maior margem operacional para a fintech emissora.
O papel do Drex: infraestrutura base para o ecossistema RWA
O Drex — CBDC do Banco Central — não é um fim em si mesmo. A meta do BCB é que ele funcione como a camada de liquidação de um ecossistema integrado que conecta Pix, tokens RWA e Open Finance até 2029, conforme a agenda estratégica 2026-2029 do Banco Central. Para fintechs, isso significa que os produtos de tokenização construídos agora serão nativamente compatíveis com a infraestrutura de liquidação soberana que o BC está construindo — uma vantagem competitiva de longo prazo.
O que times de produto e compliance precisam fazer agora
Com o marco regulatório estabelecido, a janela de diferenciação está aberta. Os passos práticos para fintechs:
- Avaliar o enquadramento regulatório: verificar se a fintech precisa se registrar como PSAV ou se pode operar como parceira de uma instituição já autorizada pelo BCB. As Resoluções 520/521 definem os dois caminhos.
- Mapear os ativos tokenizáveis do portfólio: recebíveis existentes, carteiras de crédito e imóveis próprios são os candidatos mais óbvios. Calcular o ganho de custo operacional da tokenização vs. manutenção do modelo atual.
- Escolher a infraestrutura blockchain: redes privadas permissionadas são o padrão atual para ativos regulamentados; a compatibilidade com o Drex deve ser um critério de seleção.
- Estruturar o smart contract de distribuição: automatizar pagamentos, cessões e liquidações desde a emissão é o que gera o ganho de eficiência — não apenas o registro na blockchain.
Conclusão
A tokenização de ativos reais no Brasil deixou de ser uma aposta experimental. Com R$ 1,5 bilhão em mercado, regulamentação do Banco Central em vigor, 38% de redução de custos comprovada em recebíveis e o Drex sendo construído como infraestrutura de liquidação nacional, o setor entrou na fase de escala. Para fintechs, a pergunta não é mais “se” tokenizar, mas “por qual ativo começar” — e a resposta mais direta é: pelo que já está no seu portfólio e gera mais fricção operacional hoje.

