O DREX passou por uma virada de chave em novembro de 2025 que poucas fintechs ainda assimilaram por completo. O Banco Central anunciou o desligamento permanente da plataforma blockchain baseada em Hyperledger Besu, que havia sido o pilar técnico do projeto desde o início. O motivo oficial: a tecnologia DLT não conseguiu atender aos requisitos de privacidade e segurança exigidos para uma infraestrutura monetária nacional. Fábio Araújo, diretor do BC responsável pelo DREX, foi direto: “queremos trazer toda essa tecnologia de tokenização para fora da DLT.” (Exame). Para qualquer fintech que estava construindo estratégias em cima de contratos inteligentes on-chain, esse é um recalibramento obrigatório — e urgente.
Nova arquitetura: centralizada, integrada ao Pix e com meta de 100 mil TPS
A saída do blockchain não significou o abandono da tokenização. Significa que o BC escolheu um caminho diferente — e, na prática, mais robusto para o volume que o sistema financeiro brasileiro exige. A nova arquitetura do DREX é centralizada e será integrada diretamente ao Pix, aproveitando a infraestrutura que já processa bilhões de transações por ano. O presidente do BC, Gabriel Galípolo, resumiu a lógica: “existem outras maneiras de atingir o que a gente quer… por meio de outras tecnologias.” O objetivo de desempenho é ambicioso: 100.000 transações por segundo, um salto que nenhuma rede blockchain pública ou permissionada entregaria de forma economicamente viável no curto prazo.
A primeira entrega concreta está prevista para o segundo semestre de 2026: a reconciliação de gravames, ou seja, o registro automatizado de garantias sobre ativos (como veículos e imóveis usados como colateral em operações de crédito). Essa função, hoje lenta e sujeita a erros manuais, será um dos primeiros casos de uso reais do novo DREX. O acesso inicial ficará restrito a bancos, cartórios e corretoras para operações de crédito interbancário. A expansão ao público geral está planejada apenas para depois de 2026. (InfoMoney)
Tokenização privada não esperou: o mercado já está em movimento
Enquanto o BC redesenhava a plataforma pública, o mercado de tokenização privada acelerou de forma independente — e sem esperar aprovação regulatória definitiva. Os números já são relevantes para qualquer fintech que trabalha com crédito estruturado ou mercado de capitais. A Vert Capital tokenizou R$ 130 milhões em CRAs, com meta de chegar a R$ 500 milhões. O BTG Pactual mantém o Reitz, plataforma de tokens de ativos imobiliários. A B3 anunciou stablecoins próprias para o primeiro semestre de 2026. Vórtx QR e Bee4 já processam centenas de milhões de reais em ativos tokenizados. (Exame)
No lado do crédito comercial, a adoção das duplicatas escriturais — notas fiscais eletrônicas com registro obrigatório em infraestrutura digital — segue um calendário compulsório: a obrigatoriedade começou em janeiro de 2026 e se estende até janeiro de 2028, conforme o porte das empresas. Esse ativo é hoje um dos mais promissores para fintechs de antecipação de recebíveis e FIDC, pois cria uma base padronizada e rastreável de garantias que pode ser combinada com o DREX no futuro. O risco real desse ecossistema fragmentado é a incompatibilidade entre plataformas privadas — e a necessidade de interoperabilidade que ainda não está definida. (BlockNews)
A convergência com Open Finance e Pix: o que o BC está construindo para 2029
O DREX não é um projeto isolado. O Banco Central está montando uma tríade de infraestrutura digital para o sistema financeiro brasileiro, com prazo de convergência em 2029: Open Finance (informação e dados do cliente), Pix (movimentação de recursos em tempo real) e DREX (programabilidade e liquidação inteligente). A lógica é modular: cada camada resolve um problema distinto, e a integração entre elas é o que gera valor exponencial. (Exame)
Na prática, esse modelo habilita casos de uso que hoje são inviáveis ou caros. Com o histórico financeiro do cliente via Open Finance, combinado com a liquidação programável do DREX, torna-se possível construir marketplaces de crédito onde múltiplas instituições competem em tempo real pelo mesmo tomador, com liquidação automática no momento do aceite. A portabilidade de crédito e de salário ganha agilidade real — não apenas regulatória, mas técnica. Smart contracts executados sobre dados de clientes consentidos podem acionar seguros paramétricos, liberar limites de forma dinâmica e automatizar a liquidação de operações complexas sem intermediação manual.
O que as fintechs devem fazer agora: quatro frentes concretas
Com a fase 3 do DREX em andamento e o segundo semestre de 2026 se aproximando, as fintechs que quiserem estar posicionadas quando o acesso for ampliado precisam agir antes da abertura do mercado, não depois. As janelas de vantagem competitiva se fecham rapidamente quando uma infraestrutura regulada escala. A seguir, as quatro frentes mais acionáveis com base no que o BC confirmou até agora:
- Estruture sua estratégia de gravames digitais agora. A reconciliação de garantias é a primeira entrega do novo DREX e afeta diretamente fintechs de crédito com garantia (veículos, imóveis, recebíveis). Mapear os ativos que sua plataforma gerencia e como eles se conectam ao registro de gravames é uma preparação técnica e regulatória que leva meses — não semanas.
- Avalie virar uma interface regulada do DREX. O BC precisará de intermediários certificados entre o DREX e o usuário final. Fintechs com licença de pagamento ou conta de pagamento pré-paga estão em posição favorável para disputar esse papel. Entender o marco regulatório que o BC está desenhando para carteiras digitais compatíveis com DREX é prioritário.
- Incorpore duplicatas escriturais ao seu motor de crédito. O calendário de obrigatoriedade já começou. Fintechs de antecipação de recebíveis e FIDC que adaptarem seus modelos de análise e originação para esse novo padrão de ativo digital ganham acesso a uma base de garantias mais ampla, padronizada e com menor risco operacional.
- Prepare a camada de dados para a integração Open Finance + DREX. A convergência está planejada para 2029, mas as APIs, consentimentos e modelos de dados precisam ser desenhados com essa arquitetura em mente desde agora. Fintechs que já operam com Open Finance devem começar a modelar como o dado do cliente pode alimentar contratos inteligentes no futuro sem violar o consentimento originalmente dado.
O abandono do Hyperledger Besu não foi um fracasso do DREX — foi uma correção de rota que tornou o projeto mais pragmático e provavelmente mais veloz. Para as fintechs, o sinal é claro: a infraestrutura que vai transformar o crédito, a liquidação e a portabilidade financeira no Brasil está sendo construída agora, fora dos holofotes do debate sobre blockchain. Quem entender a nova arquitetura e se posicionar nas camadas certas sairá na frente quando as portas abrirem no segundo semestre de 2026.

